Poemas feitos por autistas

15/08/2019

Título - EU SOU

Autor - Benjamim Giroux


"Eu sou estranho, eu sou novo, eu imagino se você também é

Eu escuto vozes no ar

Eu vejo o que você não vê, e isso não é justo

Eu não quero me sentir melancólico

Eu sou estranho, eu sou novo, eu finjo que você também é

Eu me sinto como um menino no espaço sideral

Eu toco as estrelas e me sinto fora de lugar

Me preocupo com o que os outros podem pensar

Eu choro quando as pessoas dão risada, faz com que eu queria encolher

Eu sou estranho, eu sou novo, eu entendo agora que você também o é

Eu digo 'me sinto como um náufrago', sonho com o dia que isso não será um problema

Eu tento me encaixar, espero que um dia eu consiga

Eu sou estranho, eu sou novo."


Título - Construa-me uma ponte (Poema dos autistas)

Autor - Mc Kean, autista, escritor


"Eu sei que você e eu

Nunca fomos iguais.

E eu costumava olhar para as estrelas à noite

E queria saber de qual delas eu vim.

Porque eu pareço ser parte de um outro mundo

E eu nunca saberei do que ele é feito.

A não ser que você me construa uma ponte, construa-me uma ponte,

Construa-me uma ponte de amor.

eu espero pelo dia no qual você sorrirá para mim

apenas porque perceberá que existe uma pessoa decente e inteligente

enterrada profundamente em meus olhos caleidoscópios,

pois eu tenho visto como as pessoas me olham

embora eu nada tenho feito de errado.

construa-me uma ponte, construa-me uma ponte,

e, por favor , não demore muito.

Vivendo na beira do medo,

Vozes ecoam como trovão em meus ouvidos,

Vendo como eu me escondo todo dia.

Estou apenas esperando que o medo vá embora,

Eu quero muito ser uma parte do seu mundo.

eu quero muito ser bem sucedido,

e tudo o que preciso é ter uma ponte,

uma ponte construída de mim até você,

e eu estarei junto à você para sempre,

nada poderá nos separar,

se você me construir uma ponte, uma pequena, minúscula ponte

de minha alma, para o fundo do seu coração."


Título - DESMOTIVO

(Intertextualidade com "Motivo" de Cecília Meireles)

Autor - Pedro Carvalho de Lucena, atualmente com 20 anos, mora no Recife, é autista "não verbal" e se comunica digitando em um teclado.


"Eu me desmotivo sem motivo.

Vivo sempre perplexo,

Querendo a sombra de um amigo

Onde eu possa descansar.

Me sinto levado pelo vento de minha solidão,

E só mesmo lendo Lispector para refletir minha escuridão.

Se me desmonto não sei, não sei.

Se me refaço me desmonto de vez.

Até que me reencontro outra vez e me pergunto:

Demoras a vir, e quando chegas logo vais embora?

Fujo de mim mesmo todos os dias.

Se sou alegre ou triste, distante ou próximo, afetuoso ou insensível,

Nem mesmo eu sei.

Mas, de tudo isso e dentro disso tudo existo,

E uma coisa eu digo: Sou autista e isso é tudo."

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